A rentabilidade das indústrias, que já havia melhorado em 2003,
bateu o recorde em 2004.
Estudo inédito elaborado pela Serasa, com base em mais de 10.000
demonstrativos contábeis, revela que o lucro das grandes, médias e pequenas
indústrias brasileiras, de janeiro a setembro deste ano, foi o mais alto desde
1994. As grandes empresas apresentaram margem de lucro de 12,4% do faturamento,
ante 10,2% de 2003, enquanto as pequenas e médias tiveram 5,1% em 2004 e 3% em
2003. O melhor controle dos custos conjugado com reajuste de preços são os dois
fatores que melhoraram a geração de caixa das empresas e por conseqüência os
lucros. Os segmentos que se destacaram na rentabilidade foram o siderúrgico e o
químico e petroquímico.
As grandes indústrias, a partir da mudança cambial de 1999, foram
favorecidas pelo aumento das exportações, enquanto o desaquecimento da economia
nacional comprometeu o desempenho das pequenas e médias indústrias, até 2003.
Em 2004 a retomada do crescimento econômico impulsionou o consumo
intermediário, favorecendo as indústrias de maneira geral.
De acordo com o levantamento da Serasa, maior empresa do Brasil em
pesquisas, informações e análises econômico-financeiras para apoiar decisões de
crédito e negócios e referência mundial no segmento, as grandes empresas
industriais apresentaram expansão real no faturamento de 79,4% neste período,
enquanto as pequenas e médias empresas registraram crescimento real de 43,2%,
no mesmo período.
Os técnicos da Serasa notaram que a maioria das grandes empresas
implementaram mudanças que lhes garantiram ganhos de produtividade, criando
produtos competitivos para atender as exigências de novos mercados. As pequenas
e médias empresas não tiveram a mesma oportunidade de investir o necessário em
melhorias semelhantes, em função da menor utilização de recursos do sistema
financeiro por causa dos juros elevados, inibindo a captação de recursos nos
volumes necessários. Além disso, operando quase exclusivamente no mercado
interno, as pequenas e médias indústrias têm o seu desempenho atrelado
diretamente ao desempenho do comércio, que por sua vez amargou, entre 2001 e
2003, o impacto da contração do emprego e da renda.
Quatro Ciclos
O estudo foi dividido em quatro ciclos entre 1994 e 2004. O primeiro vai de
1994 a 1996 e refere-se ao início do Plano Real, em que há dois fatores
importantes: um deles foi o processo de estabilização da moeda, que inseriu
maior número de pessoas no mercado consumidor, representando uma alavancagem do
faturamento das empresas; o outro fator foi o processo de globalização, que fez
com as empresas brasileiras se deparassem com o mercado competitivo. Aquelas
que souberam detectar as necessidades de implementar mudanças ou que resolveram
investir em métodos e processos destinados a elevar a eficiência operacional,
aproveitaram a oportunidade. Para as que já enfrentavam dificuldades em razão
de inadequações operacionais ou administrativas, o acirramento da concorrência
globalizada expôs as limitações em mudar rapidamente o foco de atuação e
adequar-se ao novo cenário de competição, provocando desequilíbrios financeiros
e posterior insolvência.
O faturamento das indústrias não foi favorecido nesse período, tendo
crescido 19,3%, nas grandes empresas e 21,5% nas pequenas e médias. Enquanto o
comércio experimentou um crescimento sem precedentes, as indústrias foram
penalizadas pelo grande volume de importações de produtos manufaturados, devido
a redução das taxas alfandegárias e a apreciação cambial.
A geração de caixa, medida pelo Ebitda, apresentou queda, causada pelo
aumento da concorrência provocando a redução das margens. Observando o lucro,
nota-se um grande crescimento em 1994, em função da redução dos encargos
financeiros, e forte queda em 1995 e 1996, em função do novo patamar de custos
e juros. As empresas iniciaram um processo de investimento em modernização que
causou a elevação do endividamento, principalmente junto às instituições
financeiras.
O segundo ciclo (1997 a 1999) foi caracterizado pelas crises financeiras dos
países do sudeste asiático, pela moratória da Rússia, elevação das taxas de
juros, agravamento das contas externas, obrigando o país a fazer o Acordo
Preventivo com o FMI, e pela mudança do regime cambial, com adoção do câmbio
flutuante. Apesar deste cenário, o faturamento das grandes indústrias foi
beneficiado pela mudança cambial, com reflexo positivo nas exportações e pela
substituição das importações. Somente no ano de 1999 o faturamento das grandes
empresas cresceu 13,1%.
As pequenas e médias empresas, por outro lado, cresceram apenas 2,5%, em
função da atuação predominante no mercado doméstico. Nas grandes empresas as
exportações produziram uma mudança de patamar na geração de caixa, medida pelo
Ebitda, que passou de 9,4% do faturamento de 1998 para 14,7% em 1999. Os
lucros, por sua vez, tornaram-se prejuízo em 1999, em função do aumento dos
encargos financeiros e do câmbio. As pequenas e médias empresas, que possuíam
um nível de geração de caixa muito menor, passaram esses 3 anos desse ciclo sem
obter lucro.
O ano 2000 foi marcado pela recuperação econômica, iniciada no segundo
semestre do ano anterior, e a conjuntura nacional mostrou-se positiva,
caracterizada pelo bom desempenho das exportações, continuidade das
expectativas positivas dos consumidores, melhora do nível de emprego, redução
das taxas de juros, queda da inadimplência e maior volume de crédito concedido,
fatores que garantiram o aumento das vendas. O impacto no desempenho das
empresas foi direto, refletindo em crescimento do faturamento real de todas as
empresas do segmento industrial (9% nas grandes e 3,7% nas pequenas e médias),
da geração de caixa, medida pelo Ebitda e retorno dos lucros em patamares mais
elevados, que chegou a 7,9% do faturamento nas grandes empresas e 1,1% nas
pequenas e médias.
O terceiro ciclo, de 2001 a 2003, foi caracterizado pelos seguintes fatores:
racionamento de energia elétrica, a crise financeira da Argentina, elevação da
taxa de câmbio, desaceleração da economia mundial, menor nível de atividade
econômica, perda de poder aquisitivo da população, alto índice de desemprego,
restrições creditícias, as incertezas geradas pela eleição presidencial e as
altas taxas de juros. A conjunção dos fatores mencionados beneficiou o segmento
industrial pela substituição das importações e pela ampliação da exportação de
produtos a novos mercados, possibilitando às grandes empresas a recuperação da
taxa de crescimento das vendas, tendo evoluído 13,5% no período. Porém as
pequenas e médias empresas tiveram desempenho adverso, causado pela retração
dos negócios no mercado interno, tendo crescido apenas 2,5% nos 3 anos deste
ciclo. A elevação dos juros e do câmbio causou elevação do endividamento das
empresas e redução dos lucros em 2002. A situação é revertida em 2003, com a
redução dos juros e a queda do câmbio, e as empresas tiveram lucros em
patamares vistos somente no início do Plano Real.
Em 2004, tanto as grandes quanto as pequenas e médias indústrias se
aproveitam da retomada do crescimento econômico, que foi motivado, dentre
outros fatores, pela elevação do nível de emprego e da massa salarial,
consolidação e ampliação do comércio internacional, aumento do volume de
crédito com redução das taxas de juros, comparadas a 2003 e ao aumento dos
investimentos produtivos. O faturamento das grandes empresas cresceu 5,7% até
setembro, reflexo tanto do aquecimento do mercado interno quanto do bom
desempenho das exportações. As pequenas e médias empresas, mesmo atuando
preponderantemente no mercado interno, cresceram 7,2% até setembro, o melhor
indicador dos últimos 9 anos, perdendo somente para o ano de 1994 que registrou
14,3% de crescimento.
Conclusão
Para os técnicos da Serasa, o nível de endividamento das pequenas e médias
indústrias chama a atenção. A exceção de 2002, ele foi superior ao apresentado
pelas grandes indústrias. O perfil do endividamento mostrou que em 1994 cerca
de 40% do endividamento das pequenas e médias empresas era composto por
financiamentos bancários e em 2004 o nível caiu para cerca de 30%. Esta menor
utilização dos recursos do sistema financeiro pelas pequenas e médias
indústrias foi um dos fatores importantes que contribuíram para a limitação dos
negócios e dos lucros nos últimos 11 anos.
O fato de o desempenho das maiores empresas ter sido melhor, em grande
parte, pode ser explicado pela sua estrutura de capitais, cuja maior
alavancagem, fruto do acesso a linhas de crédito com custos mais acessíveis, é
a base para expandir negócios. O grande desafio é encontrar caminhos para que
as pequenas e médias empresas, responsáveis pela maior parte dos empregos
gerados no Brasil, possam ter acesso a linhas de crédito com custos mais
acessíveis e, com isto, poderem crescer.